7 de dezembro de 2009

espelho mágico



Tenho o cabelo ruivo, numa tonalidade clara, e a minha pele é branca. Algumas sardas no rosto. Muitas nas minhas costas, no meu pescoço, nos meus braços. Olhos cinzentos, ou verdes, consoante a luz. Nariz fino, pequeno. Os lábios, na sua cor rosada esbatida, recortam-se como a único traço colorido do meu rosto para além dos olhos. As minhas sobrancelhas e as pestanas são claras, quase se nem vêem. Quando sorrio, mostro a alvura dos meus dentes sãos e

o meu espelho não me diz se há alguém

perante estes traços do meu rosto podia dizer-me a mais bela, como uma branca de neve, embora não tenha os cabelos negros, nem negra é a sombra do meu púbis, é uma carapinha rala de cor muito clara, quase albina, como se

como se nunca tivesse chegado à puberdade

e o meu espelho não me diz se há alguém

alguém que a meus olhos, cinzentos ou esverdeados, consoante a luz,

o meu espelho não me diz se há alguém mais feia do que eu.

Não sei bem o que é isso da beleza, se existe um padrão para estabelecer que uma mulher é mais ou menos feia, é mais ou menos bela. Mas o que dizem, porque ouvi, é que sou uma mulher feia.

Há trinta e dois anos que sou assim, uma mulher ruiva e feia. E por isso talvez não seja mulher. Porque dizem

ou dizem outros espelhos

que as mulheres são o ser mais bonito à face da terra. Por elas os anjos caíram. Por elas os homens se perdem. Nenhum anjo caiu por mim, nenhum homem se perdeu por mim. Eu é que estou perdida para os homens, que não me querem

- Olha a ruiva

ou

- Já viste aquela ruiva tão feia?

Sou indiferente, sou o reverso dos espelhos belos, sou a chacota das pernas roliças e dos bustos realçados, e sou entre os homens, apontando, galhofeiros

- Olha a ruiva

sendo eu para muitos a amiga eterna, a meiga amiga que lhes dá o ombro, nos momentos de amargura. A amiga ruiva. Ruiva e feia. Alguns dizem-me, quando pergunto,

- Sou assim muito feia?

que a minha beleza é interior - um cliché tão gasto, tão batido –

sou uma tecla batida

de modo que desviam a conversa no momento seguinte,

(porque não terão o dom dos espelhos mágicos?)

continuando a desfiar os horrores e amarguras das suas vidas sentimentais, dos desgostos que as pernas roliças e os bustos realçados lhes infligem; e sinto que, apesar de atentarem nos meus conselhos

- Talvez devesses falar melhor com ela

(que são frases que se dizem, tão batidas quanto a beleza ser interior, clichés e teclas batidas)

sinto que o que mais os aflige é a dúvida de saber se a amiga ruiva feia continua disponível para despejarem como num vómito de sentimentos tudo o que lhes rói na alma, e a mim

branca, pura, virginal

estala-me o desejo no sangue, e eles nem imaginam o fogo que se apossa do meu corpo quando se entregam chorosos de braços abertos como se vissem em mim a virgem Maria

(e Maria não é o meu nome, é

- Olha a ruiva

ou

- Já viste aquela ruiva feia?

por isso, a ruiva, a Ruiva Feia, sim, creio que é esse o meu nome, Ruiva Feia)

eu querendo deixar de ser a virgem

(Maria, ou a virgem Feia Ruiva, a Ruiva feia e virgem)

com uma vontade enorme de dizer-lhes para se borrifarem nas das pernas roliças e bustos realçados, e fazerem amor comigo, fazerem todo o amor que jamais fizeram com alguma mulher que se fite diariamente ao espelho e não saiba o que é ser branca, leitosa, sardenta, de cabelo em chamas, talvez das mesmas chamas que me cobrem de calor o corpo nas noites em que adormeço nas minhas fantasias e gozo na solidão e na sombra de um espelho que não sabe dizer-me

(porque não terá o dom dos espelhos mágicos?)

- Não há mulher mais feia do que tu.

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