18 de novembro de 2009

era novembro e chovia



Era Novembro e chovia. Na pequena aldeia, as principais ruas eram iluminadas por um brilho amarelo e tímido das lâmpadas plantadas de longe a longe. Como se as tivesses tirado do sótão e pendurado nos postes magros

(lembras-te do sótão concerteza, vinham as noites quentes de verão, levavas-me lá acima para ver o céu estrelado e dizias

- Um dia compro-te um telescópio e ficamos os dois aqui a ver as estrelas de perto

mas nunca isso aconteceu, sabias lá o quanto te custaria um telescópico… tinhas sonhos a mais para um homem da tua condição e isso matava-te, matava-te tu saberes tanto e poderes tão pouco).

Uma dessas luzes amarelas e fracas brilhava uns metros depois da casa, conseguíamos vê-la da janela húmida que a mãe corria a fechar-nos ao mundo, com as suas portadas desengonçadas e velhas, quando chovia

- Não quero que ninguém se constipe, não há dinheiro para comer quanto mais para remédios e xaropes

e ainda assim, apesar de todos os seus cuidados, eu acabava por adoecer mal o frio chegasse à aldeia, com febres e delírios, a mobília crescia e diminuía, transformava-se, as vozes falavam-me estrondosas como trovões, mas se me esforçasse um pouco mais a concentrar-me, eras afinal tu que recolhias a casa, deixavas os três porcos que nos restavam no aido, roncos de suíno, chicotadas,

- Eh porco!

ralhando e praguejando com os animais, mas no fundo eras bem capaz de te deitar com eles, no chiqueiro, eras capaz de os confundir com os camaradas que jogavam contigo o dominó ou a sueca, na adega do senhor Manel. Lembro-me da mãe muitas vezes me dizer

- Fica aqui quieta, não abras a porta

e quando julgava eu que me tinham abandonado para sempre, a porta abria-se em soluços, e entravas tu, empurrada pela mãe, o teu cotovelo a desarmá-la, fazias aquele teatro de tentares ficar sóbrio para que eu não reparasse e murmuravas

- Não deixes que a miúda saiba

e a mãe, sem baixar a voz

- Não tivesses bebido

e tu, ainda murmurando

- Fui na maré

e a mãe, elevando cada vez mais a voz

- Um dia afogas-te.

Vinhas cambaleando sobre mim, eu por vezes receava, não que me batesses, a mim nunca o fizeste, mas porque parecias um desses móveis transformado em monstro que aumentava e diminuía consoante as febres e eu fugia-te

(e como te magoava o meu medo, o porquê de te fugir, a tua filha que te fugia).

Só então é que erguias o punho, como se a mãe tivesse culpa do meu medo, do teu delírio e, ainda que desses apenas uma vez, a mãe no outro dia havia de se desculpar às vizinhas com uma queda, um tacho que caíra do armário, para justificar aquela nódoa, aquele olho inchado. Por vezes choravas, dizias que tinhas matado, esventrado, e eu imaginando-te lá por África matando e esventrando porcos, como sempre fizeste desde que me lembro cá em casa. Nunca compreendi que turras eram esses, nunca compreendi os comunistas que nos comiam ao pequeno-almoço, se calhar os comunistas móveis transformados numa febre, nunca compreendi as tuas lágrimas, assim como nunca compreendi que numa dessas noites de Novembro, em que chovia lá fora, e não se viam estrelas, o sótão estava fechado até que fosse verão novamente, e ouvi a mãe gritar

- Ai Meu Deus, Ai Meu Deus

fazendo alarido àquela hora tardíssimo, ela que detestava que falasses alto quando fazia noite, a mãe que te fora buscar porque fazia horas que não saías da soturna adega do senhor Manel, boteco escuro que apesar dos rebuçados coloridos que o dono me oferecia constantemente, me dava arrepios lá entrar. Não fosse ele ser teu companheiro lá em África e me comprar com doces para eu entrar naquele cubículo a tresandar a vinho e a aguardente, fugia dali a sete pernas, porque sabia que mais tarde ou mais cedo tu sairias de lá e quererias ficar a dormir com os porcos

- Eh porco!

E foi numa dessas noites: a mãe encontrou-te estendido na lama dos animais, de bruços, e quando te virou o corpo, viu-te os olhos baços, tão baços quanto a lâmpada amarela que iluminava a rua, e a tua boca aberta

(eu não sei, não vi, ela é que dizia)

lamentando as desgraças que por África dizias ter semeado.
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