28 de outubro de 2009

não me entendo


Silence..., por Carlos R em 1000 imagens


Sinceramente, não me entendo. Não chego a conclusão alguma sobre isto que sinto. Batalho todas a noites com o travesseiro moído de insónias enquanto a minha mulher dorme a meu lado na sua paz inocente. Observo o seu sono, noite após noite, e encanto-me: a quietude do corpo, o cabelo espalhado, as pernas nuas espreitando dos lençóis numa lascívia ingénua, as mãos repousadas perto do rosto. Os lábios entreabertos como que à procura de um beijo, revelando a doce brancura da dentição. Orelhas pequenas, nariz atrevido, pequeníssimo. É bonita a minha mulher, e isto deveria ser maior que todas as razões para as minhas insónias, às voltas no colchão, sem me entender. Sem chegar ao porquê que isto aconteceu. Viro-me para o outro lado, talvez envergonhado porque o pensamento

- Inês

vai contra tudo o que construí até hoje; o meu filho dorme também o seu sono inocente no quarto ao lado, embarrilado pelos legos, pelos carros em miniatura, livros e puzzles, jogos, dvds e toda essa nova tralha com que os miúdos de hoje se divertem por um dia para no outro quererem outras bugigangas semelhantes. O meu filho

- Pai, queres brincar comigo?

e eu magicando-lhe no rosto outras parecenças que não as da minha mulher, eu magicando

- Inês

enquanto ele espalha um enorme saco de peças para construir um avião, uma nave espacial, brincando afinal sozinho porque eu longe, com uma peça azul na mão e o pensamento num outro espaço, numa realidade que não a minha, o meu pensamento chamando

- Inês

chamando por aquilo que não é, o meu pensamento acovarda-me chorando silencioso sobre o meu próprio ombro, de resto com imensa piedade de mim mesmo, pobre coitado de mim; isto é uma pieguice pegada, um nome, um nome apenas que me desliga do mundo em que vivo

(como se regressasse à adolescência, com as gangas roçadas e fralda solta, procurando a novidade nas raparigas que se aproximavam de mim

- Rita

explorando com a mão a descoberta de um seio imberbe, sonhando molhado com o nome

- Rita

ou seja agora

- Inês)

virado para o lado de lá da cama, virando costas ao corpo repousado da minha mulher, com vergonha, eu com vergonha de pedir

- Queres brincar comigo?

e a peça azul colocada na mão como por acaso, olhando nas feições do meu filho uma outra ascendência, não a da minha mulher, mas a de um nome

- Inês

e no entanto é a vozinha dele que me apela, desembocada numa decepção

- Pai brincas ou não comigo?

e eu virando para o outro lado, sem largar o estranho objecto azul; eu com vergonha do meu filho cujas feições as da minha mulher.

As pernas da minha mulher espreitam do lençol numa inocente lascívia, os lábios entreabertos na procura de um beijo, e se queres um beijo é um beijo que te dou, Inês, beijo-te a boca com a sofreguidão de um aflito, num sufoco de náufrago, porque se me afundo é contigo que afundo tudo, os legos, o lençol que encobre lascivo as pernas da minha mulher, as feições desfiguradas do meu filho

(acordando em sobressalto porque sonhava que o meu filho)

e agora porque me apareceste assim, vinda não sei de onde e para quê, agarra nesta peça azul com que construo o avião para o meu filho e sê tu a ver nele as feições que gostarias que um filho teu

(sonhava que o meu filho sem feições, sem rosto, desconsoladamente decepcionado porque eu de costas voltadas, o meu filho sem perceber

- Pai então já não brincas comigo?)

um filho teu ditado pelos meus genes, mas não é este, este não, vieste para mo destruíres, vieste como um vírus que se instala, ou uma droga que ferve nas minhas veias nestas noites de insónia, com o pensamento às voltas na cama, moendo o travesseiro com o teu nome

- Inês

molhando-me os sonhos com as tuas pernas de pérfida lascívia, a tua boca escancarada sobre o meu rosto arrancando-me os beijos que ainda não soube colocar em ti, colocar-me em ti

- Pai brincas ou não?

e ter um filho cujas feições morrem no azul de uma peça com que adormeço, como o náufrago se agarra a uma coisa qualquer enquanto se deixa ir para o mais profundo do abismo

- Inês

Inês o caralhinho a sete, sabes? Sinto-me tão cansado com esta luta pateta… Chegar-me-ia

(chegar-te-ia)

consumir esta coisa que me amedronta com um simples abraço? Sem que me mordas as orelhas ou afundes os teus dedos dentro das minhas calças

(a fralda de fora, e as gangas roçadas, onde estão as pernas, que é feito dos braços, Rita?)

num abraço longo para me apaziguar, libertador, sentir-me por inteiro e não dividido, um abraço que se impusesse como o derradeiro? Que posso fazer, que devo fazer? A sério que não sei, que não me entendo.

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