31 de outubro de 2009

mais um cigarro


(autor desconhecido)


Alguém deve ter-se insurgido contra a ansiedade e a angústia: pelo chão viam-se espalhados vários cilindros esmagados de cigarros que nunca foram acesos, e eu a questionar-me olhando à minha volta sobre quem terá sido o felizardo de tão alegre proeza: matando a fome depois de morta a angústia. Não avistando ninguém pulando de contentamento por ter deixado os grilhões, louvando guinchos à sua liberdade

(na verdade as pessoas que se cruzavam ali comigo naquele sítio semeado de cigarros nunca fumados nem um sorriso de contentamento concediam, todas fechadas como o céu se fechava sobre as nuvens que ameaçam e nunca chove, as pessoas levam as negras nuvens dentro de si, não as deixam à entrada da porta de casa, sentam-se com elas no sofá, analisando as contas da frutaria, do talho, da padaria)

não vendo ninguém, dizia, atirando ipirangas ao desbarato como quem lhe calha a sorte grande, duvidei dos cigarros esmagados, e segui o meu caminho, com as contas da minha vida em nuvens que nunca chovem.

Podia ter dito

- Isto fica por aqui

mas sabia que mais tarde ou mais cedo regressaria àquele ponto em que a esperança ainda maior que todos os tormentos a tentar convencer-me que afinal se alguém tinha tido a coragem de despedir-se e ir embora de si mesmo sem olhar por cima dos ombros, não seria ninguém que fosse ou tivesse mais que eu e portanto a minha esperança também, o meu dia aproximando-se quem sabe, talvez os cigarros atirados no chão um sinal de que consegues, também és capaz

(a quantas pessoas com as nuvens carregadas dentro de si lhes é concedida a sorte grande, diz-me lá, de um momento para o outro toda a gente enriquecendo, vaporizando as contas da frutaria, do talho e da padaria agora sem qualquer significado?)
e no entanto, os meus cigarros ali em cima da mesa, apertadinhos dentro do maço, acendo um e podia ter dito

- Isto fica por aqui

mas ainda que a angústia maior porque as nuvens quase a chover dentro de casa, sobrecarregadas com as sombras dos cantos onde me encolho de lágrimas e cinzas a juntarem-se-lhes

(as pessoas quando nascem tristes e aprendem a vida entristecendo podem morrer vendo as cores de uma alegria eternamente prometida?)

ainda que a ansiedade não desse sinais de se ir embora, eu convencido de signos divinos, de dádivas ao acaso espalhadas na ruas prometendo

- Olha que ainda é possível

de cigarro pendurado nos lábios sem querer saber nada das contas da frutaria, do talho, da padaria

(da farmácia, as pessoas carrancudas ficam que horas olhando as contas da farmácia).

E vendo bem, os céus até são benevolentes com este estado de espírito surgido do nada como acontece aos náufragos ao avistar palhinhas boiando na água

- É a minha salvação

e por isso deixo as nuvens e as sombras entenderem-se como quiserem, se lhes apetecer que chovam, o que vejo são raçadas de sol inundando a varanda como um chamamento e é para lá que vou, dizem que a luz

(as pessoas na rua vão como cegos aos tropeções, caminham dentro de uma escuridão, onde está o interruptor para as fazer felizes um pouquinho, ninguém está a pedir a sorte grande, basta a terminação, qualquer coisa para que se esqueçam das contas, de alguns cigarros poupados, as pessoas juntando-se na harmonia do fim da tarde)

dizem que a luz sinal de esperança, devemos de ir ao seu encontro, abandonar definitivamente a morte e crescer dentro de uma claridade vedada às nuvens negras que nunca chovem

(mas afinal as pessoas mortas sem o saberem?).

De maneira que antes que o sol se vá, é para a varanda que me dirijo na tentativa de sentir qualquer coisa diferente, apartado dos cigarros e do que eles significam

(outras nuvens que nunca chovem, estas definitivamente não chovem).

Na varanda, eu e as pessoas que vieram comigo em harmonia procurando o milagre da luz, vemos o sol a tombar no mar, e as casas tombando também, no sentido contrário, com as sombras dos telhados sobre os outros telhados, alongando as paredes e os espectros das chaminés como se viessem a crescer com a noite e depois da penumbra imposta, nada, desaparecem. O que sobra? Desconsolo, desilusão, desconforto? Frio, obviamente que frio.

Não compreendo como alguém poderá ter espalhado os cigarros pelo chão, não é sinal algum, é tudo mentira, as nuvens aproveitaram a penumbra para virem chover e nada, não pinga nada. Não pinga nada e nem um fósforo se acende para que, no mínimo, pudéssemos compreender as contas da frutaria, do talho, da padaria e da farmácia. O melhor é acender mais um cigarro, dizem

(ou digo eu apenas?)

que a ansiedade e a angústia são como as feras: têm medo do fogo.

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