5 de outubro de 2009

ciclo II


foto de Susana Ferreira em 1000 imagens


Não faz muito frio ainda, é verdade, mas reparaste já no aroma a vinho novo no ar? Os chorões e os plátanos vão despindo-se aos poucos das suas folhas para de árvores frondosas se transformarem em esqueletos ao vento. Veio este bocadinho de chuva quando o céu se cobriu de algodão de chumbo, a temperar as sombras onde nascem as estações feias

(é como lhes chamas sempre que rompe outubro, mal se nota as nódoas da chuva no cimento dos passeios, nas irregularidades da rua)

e resistes à ideia que o outono se vem instalar, ignorando o recolhimento da azálea desflorada, os assobios melancólicos dos melros, os domingos desocupados, os miúdos em bandos de mochila às costas, a noite descendo na hora em que sais do trabalho, e todos esses sinais que mais cedo ou mais tarde te tomarão, apesar de insistires que não, a resistires.

Resistes de braços caídos e olha que isso não é resistir, é resignares-te ao ciclo que se fechou onde outro se abre. Contrariada pelo modo como entortas os lábios e as sobrancelhas, sabendo que o calendário não te engana. Tens medo das penumbras, do choro lento dos dias e da imposição da noite

(não as noites quentes que deixaram há muito de ter a mesma vida, agora são apenas os pardos gatos farejando os contentores de lixo, a claridade triste da iluminação na rua, as janelas dos prédios corridas de bocejos e sonolências e o trânsito que ao longe de tão colorido

- Não digas isso, por favor

o trânsito compacto com os seus faróis ligados tal qual

- Não o digas

as luzes do trânsito como decorações de natal que pouco falta para lá chegarmos

- Eu pedi-te para que não o dissesses)

e tu choramingando como a chuva aos bocadinhos, embrulhada numa manta no sofá a procurares programas banais na televisão, ou abrindo um livro ao calhas exortando numa impaciência serena a hibernação do riso, a sede dos copos de cocktails, a brisa das árvores e a fresca liberdade de te estenderes sobre a erva jovem.

(Olha lá, mas não sentes o mesmo quando o sol reinando ufano a derreter os corpos, transformando o barro em pó, os corpos suados com a roupa colada à pele, as matas que se imolam, as tardes perdidas a recuperar do sono das noites abafadas e insones, afinal de que te queixas tu?)

Desconcertada atiras-me a manta, os livros, o comando da televisão, a mandares foder-me com as pategadas que escrevo, a dizeres

( - Vai embora, pira-te, chegou ao fim um ciclo, não é? Então que fazes ainda aí especado, não te quero ver mais, adeus)

a dizeres que

que

...

Sei lá já o que dizes: as nódoas da chuva alastraram e a noite trouxe as penumbras que te assustam, carregam para ti os momentos de depressão, os fins de semana encostados ao silêncio, e nada tem de ser assim. Olha-te ao espelho e aceita-te: vive em paz contigo mesma, e verás que os ciclos são circunferências, nada se fecha, tudo se renova constantemente.

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