3 de junho de 2009

rosário



Das tuas mãos tatuando o medo: trouxeste um rosário e dedilhavas cada conta como se a abrir um livro novo. Com os olhos caídos num chão de nadas, um chão de invisíveis, enquanto o noticiário avançava numa cavalgada alarmista. Não era a ti que competia dominar a besta, as ventas furiosas arfando. Por isso pedias contas a um domador e multiplicaste o rosário com o mesmo silêncio do chão onde ainda se encontrava o teu olhar. Os teus lábios febris, ininteligíveis, sem soprarem qualquer som da tua voz ainda que fosse sussurrada. Não vias, mas ouvias os relinchos constantes dos jornalistas. E tu redobrando as contas, os teus dedos como aranhas tecendo o medo. Até que outro som se ouviu, obrigando-te a um alvoroço pavloviano, deixaste o rosário estendido no nada do chão e as tuas pernas retesaram. Levaste o auscultador ao ouvido e o olhar contra uma parede de nadas, uma parede também de invisíveis, apesar dos quadros, das fotografias do teu filho, ele que te diz, do outro lado da linha

- Descansa, eu não embarquei e está tudo bem.

e tu

- Louvado seja o domador! 

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