21 de abril de 2009

pré-laboral com bastante tragédia


(daqui)


Vem o vento atordoando a gentileza da manhã e não há vontade alguma de me erguer da cama, fazer a barba, encarar o dia que recomeça, tudo a repetir-se uma e outra vez. A cortina corrida que não anseio abrir faz cair no quarto uma luz cinzenta de objectos perdidos. As pernas por dentro dos lençóis gesticulando impaciências matutinas, os olhos persistindo aninhados na cova das pálpebras, e a boca desenhando um corte esgotado no rosto. 

Um mau acordar com o hálito a enxofre. Porque nada de agradável me espera para lá destes lençóis, depois do banho e da barba feita às cegas, após duas goladas num café de véspera morno e a trinca desconsolada na torrada.

Sou violentamente subtraído da cama à força de pontapés imaginários carregado de raiva contra os empregadores deste país. Despeço-me angustiado dos lençóis amarrotados por tanta luta contra o mundo. O mundo que, durante os quarenta e cinco minutos em que me preparo para o enfrentar, odeio. Visceralmente.

Vou imaginando com azedume os rostos que então se cruzarão comigo, multiplicados de sorrisos, bons dias, quase vénias de meter nojo, falsas simpatias. Nada é perfeito, é sabido e certo, mas estas manhãs assim são actos obscenos contra a integridade psicológica de qualquer um.

Até que, a pouco e pouco, muito devagar sem que possamos dar por isso, eu e os rostos acabamos por nos conciliar, acabamos amavelmente confraternizados no nosso comum objectivo: que o dia acabe! E o humor até deixa espaço e pretextos para piadinhas de circunstância, risadas de toda a ordem.

São os ódios que se querem uns aos outros, cúmplices e solidários.

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