30 de março de 2009

por acabar


desenho de Allan Hart (daqui)



Dormito sobre os livros com a baba rente ao queixo enquanto o gume do vento vai caçando os braços desprevenidos lá fora, com este sol a brindar a tarde e porém o frio outra vez. Sinto que tenho mais sede

(mais fome, mais desejo)

e não descanso como seria suposto, com os cães cansados de latir, a deformar-me a consistência dos sonhos.

Qualquer coisa entre a vigília e o sono. Qualquer coisa entre a cor e o preto e o branco e o cinza. Entre o cigarro e a cinza.

Tacteio vagamente e vazio as palavras pelos livros dentro e vou como um cego analfabeto

(entre o verde e o musgo, a nadar, a nadar)

um cego que não sabe ler em braille.

O vento lá fora caçoando dos braços desprevenidos e a baba rente ao queixo, mexes-me um braço, afagas-me o peito do ronco alarde e dos livros

(o que eu leio, o que sei que leio)

juntos à face rubra, uma quietude muito atribulada para quem se quer quieto, os teus dedos a limpar-me o queixo, e o queixume, a varrer livros e palavras numa braçada de água

(entre o musgo e o lodo)

o queixume de mim a rogar-te

- Deixa-me dormir, deixa-me dormir…
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