24 de fevereiro de 2009

tudo contudo sem palavras




Aqui fico demorado na inconstante prisão do álcool com grandes brilhos de vidro, solicitando nas nuvens a compulsiva esperança de liberdade. Passam as horas,

(ouvi hoje alguém dizer, de olhos fechados, que o tempo é um delírio de deus),

e não sei dizer se estou fatigado, se derrubado, se desperto, se morto enfim e sem conhecer o meu corpo acabado e imprestável. Penso que agarrando assim o ar, fechando o punho com firmeza sobre o invisível, possa resgatar alguma vida e foi como fiz: afinal não sou ainda morto, mas toda a cidade, desde o varandim até ao confim do horizonte poluído, é uma enorme barreira que se levanta.

Pego num lápis rombo e discorro: tudo é escrita e tudo contudo sem palavras que o afirmem; tudo se volta e revolta em mim no contrário do que sou e tudo isto é isto que sei e não tenho como dizer senão que a sombra (redundante sombra!), nestas circunstâncias,

(em que é permanente e físico o delírio de deus),

serve-me como leito ao meu sono de ébria frustração.
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