26 de fevereiro de 2009

síndrome de Bartleby




Nas ideias um oco, sobeja o silêncio branco de nada dizer, apenas o princípio de qualquer coisa que nunca chega a ser coisa alguma. E os papéis acumulam-se vomitados sobre o cesto. Tantas frases mal começadas, tantos riscos, letras amontoadas como sucata reciclada. Não será por acaso: os jornais afinal são também assim, verborreias descartáveis. O que se disse ontem já não tem valor hoje. É o que se consome, o imediato. Tudo o resto fica na berma do prato, quiçá alimento para rafeiros magros de solidão. Somos como cães danados à procura de certezas, de perfeição.

Ao acabar o cigarro tudo na mesma: a esferográfica paralisa num A

(e porque será o A uma letra tão importante que paralisa assim a esferográfica, que atrofia as ideias até ao osso?)

encontrando a barreira do eco e da repetição

(estou cansado, estou cansado, estou cansado)

num novelo de desagrado, de impaciência, a desistir de tudo enrolando a bola tosca de papel que salta para o cesto do lixo, levando mais meia dúzia de letras, palavras mal escolhidas, frases por completar.

Cumpra-se a matéria urgente do amor, era o mote. Mas do amor quem daí quer ouvir ou ler o que for? Direi pois o quê? Com todos estes livros por ler e o cesto dos papéis aguentando a frustração de tantos As

(ases?)

que nem para um baralho de cartas do solitário servirão.


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