16 de setembro de 2007

por medo


foto de Francis Leonardo Cirino (encontrada aqui)


Se tudo continua por dizer e palavra alguma se acrescenta. E no entanto a suspensão dos lábios, as reticências no olhar sobre a lisura da parede. Esboçam-se gestos no vazio, as mãos gaguejando exclamações moribundas, os dedos apontando interrogações desarticuladas como se tornadas blasfémias, a conspurcar a moral enquanto se vão colocando dúvidas acossadas na última página de um livro pobre a que se acaba o papel, sem espaço para o “e depois?”, e as palavras descarriladas, vertiginosas, sem vocação para o abismo. Fica-se de boca aberta soletrando o silêncio, num caos de disfóricas onomatopeias para o medo.

O medo! E tão tarde é agora para recear, para temer. Sacode-se a comoção com um suspiro lento, os braços levitados desmaiam-se sob a gravidade do peso, e o corpo é um hábito cansado, uma masmorra ofegante, insidiosa e diluta ruína.

Por dizer palavra alguma se acrescenta. Porém o horizonte chora, murmurando a distância. Como se – e com pouco ou nada: a boca treme nos seus últimos espasmos, vindo a morrer fragmentada quando tudo enfim se quer e se transforma em objecto dispensável.
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