5 de fevereiro de 2009

essa palavra é revolta


(autor desconhecido)


Se olhares à tua volta, o que vês? Diz-me lá, não com os olhos bem abertos, como quando acordas estremunhada
- B’ dia
numa cama que não a tua e não te lembras de mais nada, não sabes onde estás, como ali
(aqui)
vieste parar, e abres então bem os olhos para as paredes, a janela, os móveis, as roupas espalhadas no chão, enquanto eu te respondo, bem desperto
- Bom dia!
Vá, olha à tua volta como se fosse um desses momentos em que procuras o equilíbrio do espaço físico que não conheces. Que vês tu?
É difícil acreditar, eu sei. Nessa atitude de não quereres saber, em que encolhes os ombros, incrédula, é como se te escondesses entre os lençóis afagando ainda um sono que não terminou de todo, e o pior é isso, sabes, o pior é que andamos assim todos a não querer saber, a despertar por momentos num mundo estranho
- B’ dia
e voltamos, numa cobardia inocente, à paz dos lençóis, deixando para depois o terrível decifrar da situação.
Não quero que fujas, te isoles. Não quero que deixes para depois. Quero que faças parte desta realidade que o subconsciente te ajuda a não dares fé. Esquece tudo o resto. Arregala bem os olhos e vê. De ouvidos bem atentos escuta. Não é o
- Bom dia!
bem desperto que vais ouvir. Não serão paredes ou janelas ou a roupa espalhada no chão, produto de uma noite que já não te lembras como aconteceu, assim, que ainda estás a despertar do sono bem devagarinho. Arregala bem os olhos e quero que acredites, quero que sintas que a realidade sempre foi esta e mais nenhuma. Quero os teus ouvidos acordados para escutares a palavra:


«Essa palavra é revolta

Uma cadeira é uma ponte muito estreita para um mar como este. Levanta-se um vento acima dos cadeados e as nuvens pesam toneladas mesmo para aqueles que nunca pensaram em enforcar-se nos barrotes de um alpendre. Uma cadeira torna perigosa esta cabeça que rapidamente se inflama ao som dos coágulos de sangue que percorrem as paredes em busca de uma palavra. Os impostores não foram desmentidos, as fórmulas continuam a servir e os barcos naufragam até na sombra das areias.
» (*)

Com certeza compreendes agora. E que vás buscar finalmente o porquê de que, agora, quando acordas, estremunhada e balbucias
- B’ dia
já não encontras a voz para te responder, bem desperta,
- Bom dia!



(*) da autoria de Sérgio Pereira, publicado no Jornal de Notícias, em 1994
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