28 de janeiro de 2009

não há como


(daqui)

- Queria escrever um poema de amor

Não o escrevas, poeta. Virá a mágoa numa maré de corpos que entre si lutam por um pedaço de metal. Abre as mãos e recolhe o trigo das searas. Constrói o pão. Tempera-o com o sal do teu suor, a suavidade das tuas lágrimas. Dá-nos de comer, a nós, infame espécie. Todos os poemas são profanados, e não há como o novo pão para que o papel retorne à sua qualidade vegetal. Quando souberes que todo o papel é virgem da ignomínia, então tenta. Bastará uma palavra para florir um novo prado onde os corpos caídos se esqueçam do vil metal e te adore como a deus. Mas aí, poeta, aí não permitas que tudo recomece: imola-te, para exemplo da maior e absoluta humildade.
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