19 de janeiro de 2009

inclinação




Do que eu recordo é a água agitada do Douro, e as pedras centenárias inclinadas

(numa inclinação indiferente a tudo)

sob as sombras das nuvens que profetizavam chuvas. E o pé calcando a beira viscosa das águas que vão e vêm na maré, conduzindo a rodopios de ninja, desequilibrando o corpo numa esfera de vertigem; e no instante da queda, era o mesmo abismo visto do cimo da ponte entre braços de ferro e tremeliques amaricados.

Verde. É a cor de que recordo depois da espuma e dos buracos antigos vomitando os despojos das cidades. E peixes grandes que não agarraria debaixo do braço de tão compridos eram.

Então perdido num quase deserto de águas escuras ao vento inclinadas

(numa inclinação indiferente a tudo)

senti emergir-me nos braços fortes de não sei quem com as vozes em gritaria de uns quantos que pareciam preparar-se para outros golpes de ninja, desequilibrando o corpo numa esfera de tragédia; não tanto, mas quase quanto em noites de São João a ver o fogo derretido sobre os braços de ferro, e o alvoroço de histerias amaricadas.

Azul, veio depois essa cor. Era o céu que entretanto se limpara, guiando o milagre para cima das mesmas pedras centenárias inclinadas

(numa inclinação indiferente a tudo)

e do que eu recordo é o sufoco dos olhares poisados em mim como se eu um peixe grande que não se agarra debaixo do braço por tão comprido, as vozes aglomeraram-se e tudo tão denso, tudo tão inclinado como as águas com o vento que a última recordação foi o meu corpo agitado e o resto sem cor, esvaindo-se num sufoco negro de nuvens fugidas profetizando chuvas para outras tragédias urbanas.
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