11 de janeiro de 2009

esgotamento


(daqui)

O que me parece é que a cabeça se escaqueira. Assim, de um minuto para o outro, como quem atravessa a ombreira de uma porta e na transição algo se transforma. No caso, em cacos. Pedacinhos pequenos, minúsculos. A trabalheira que me dá reunir tudo, tacteando com os dedos por baixo dos móveis para não esquecer um único caco! E a paciência de relojoeiro que é preciso ter ao reconstruir tamanho e monstruoso puzzle.

Hesito sempre por onde começar: se pelos olhos (fico desorientado), se pela memória (entro num segundo puzzle). Por vezes os pedaços não encaixam, não têm a geometria certa para o sítio onde acho que devem pertencer. E então martelo até ficarem entalados.

Dias depois, é certo, abro a porta do frigorífico procurando pela escova dos dentes e troco o nome às pessoas. Dou as almôndegas do jantar ao gato e vou pescar para o aquário borbulhando o reflexo dos meus olhos apáticos. Aguento-me assim algum tempo e depois, zás!, lá está tudo escaqueirado no chão novamente.

Outras vezes, felizmente não poucas, encontro a equação perfeita e equilibrada e os cacos encaixam tão bem como quem calceta uma rua. Leio livros de uma assentada, reconheço as marcas dos automóveis, ouço com enorme interesse as notícias. Sorrio, rio, converso, sou cordial, sou simpático e deixo os peixes do aquário em paz

(o gato fica algo mais triste, desconsolado, a plantar no ar pontos de interrogação).

E vou andando assim, com as pessoas atrás de mim seduzindo-me com blisters de comprimidos brancos ou mais coloridos, saquetas de pó e água efervescente. Não quero… se ao menos fosse qualquer cola especial, para que os cacos se segurassem por mais tempo… É que o que me parece mesmo é que a cabeça se escaqueira...

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