13 de janeiro de 2009

azeviche


[autor desconhecido]

Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
Nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
por vê-los nus e suados.


Eugénio de Andrade em As Mãos e Os Frutos, musicado por Fausto


*

A toada de Fausto entrou no ambiente e trouxe vinho para tomarmos, e foi quando pegavas no copo que reparei no pequeno sinal sobre o teu anelar, como se fosse a pedra de um anel. Uma pequena pedra de azeviche. Estranho nunca ter reparado, afinal é tão pouco vulgar um sinal negro na falange, substituindo a ausência de uma jóia. Talvez porque só te toque os lábios e te devolva o sorriso com os olhos; talvez porque as tuas pernas torneadas me encham as palmas das mãos, ou o teu peito me desmanche a carne para outros sentidos. Ou talvez a humidade no teu baixo-ventre (outra pedra de azeviche aninhada no teu colo), que me fascina quando se abre num apelo carmesim. Não sei. Os teus dedos tragados na fome dos suspiros eram só um toque de pluma sobre a carne, animal e cega.

Não era costume olhar os teus dedos, e hoje foi pelo vinho que tomávamos, trazido no acorde e na voz de Fausto, que te redescobri como pedra preciosa.
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