14 de novembro de 2008

partículas


Leituras, por Pedro Moreira em 1000 imagens


Não volto por te achar ausente, ou porque esse cliché gasto da saudade me tenha batido à porta. Não tenho portas na minha morada há muito tempo – se a foste bater erraste no endereço.

As coisas sempre vão mudando, sabes disso, não sabes? Se os ponteiros de um relógio pararam não quer dizer que tenha o tempo suspendido por uma ilógica razão cósmica à mercê das nossas vontades mais mesquinhas. Apenas porque aconteceu ter-se esgotado a energia de uma pilha, ou uma corda que desandou.

Os relojoeiros encontram também pó nas engrenagens desses aparelhos. Pequenas partículas que impedem as rodas dentadas de prosseguirem a sua função coronária. E pode ser uma boa razão; talvez a melhor razão. A mais razoável, passo o pleonasmo. Pó na engrenagem. Partículas minúsculas que nunca vemos mas suficientes para que tudo pareça continuar igual, inalterável. Que nada tenha evoluído, nenhum passo dado, nenhuma atitude tomada.

Porém, tudo continua funcionando, os vazios cobrem-se de espaços, os silêncios inundados de ouvidos; e depois já não somos nada do que tencionáramos ser, ou pelo menos nunca iguais ao que já fomos. Tudo transfigurado: olhamos o relógio, os ponteiros exactamente na mesma posição

(dias, semanas, meses, anos?)

sorrisos eternos, lágrimas cristalizadas, e não existiriam razões para dúvidas, não haveria argumentos para recear as mudanças que as estações do ano nos obrigam. E quando enfim nos damos conta dessa falácia, entendemos de garfo suspendido a meio de uma refeição que afinal o sol se deitou para a noite o fertilizar com novos amanhãs, e num instante os dias foram completando ciclos repetidos embora sentidos em movimentos de moribundo.

Pó na engrenagem. Volto cá para o sacudir, como quem renova a vida de um livro com um sopro dos lábios, ou restaura a cor com a palma da mão a um quadro escondido no sótão. Não vim pela ausência sentida, nem por essa saudade trauteada. Apenas para que te desses conta que os ponteiros podem agitar-se novamente, qual músculo cardíaco reanimado por pequenas mãos frágeis. Aliás, que a fragilidade é um equívoco, os ponteiros sempre prosseguiram o seu caminho, a sua sombra é que fugiu na escuridão. Ficas então a saber a partir de agora. Como tudo o resto já sabe.

É a sabedoria que nos regela de arrepios e receios.
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