25 de agosto de 2008

a vez



Afundei. Deixei-me a afundar na esperança preguiçosa de ver melhores dias. Convencido com uma certeza indiferente de que alguém certamente viria para abrir-me as janelas, sacudir-me da poeira, trazendo as algibeiras transbordando esperança. Fui de livro em livro procurar o nunca achado e regressei de todas as vezes com as mão negras de nada, as mãos como pedra. Vi esvoaçar sorrisos, soavam harmoniosas vozes e gargalhadas deslocando-se da esquerda para a direita conforme passava o autocarro onde devia seguir dentro, e que perdia toda a vez que aflito tentava embarcar. E as vozes, e as gargalhadas, deixavam o tom harmonioso para um esgalhar confuso de troça e dó.

Ouvia os dias erguendo-se com esplendor, duas ou três melodias a agarrar-me os ombros

- Vem daí

e eu

- Não quero, não vou

convencidíssimo que não chegara ainda a vez de, que não havia dado o tempo suficiente para, que seria preciso aguardar mais. E depois isto e outra vez aquilo diluindo as hipóteses até que o sono me resgatasse num bocejo e a cabeça rodopiando sem eira nem beira. Noite após noite, aconchegado na minha redoma de parvalheira, a dialogar comigo mesmo, a afastar os medos com a febre das alucinações.

Agora parece-me tudo sempre e cada vez mais adiante. Os dias perderam-se, deixaram cair o esplendor, os livros foram-se calando em revoadas de folhas aninhadas no vento, e eu ensurdecendo deles, cegando das palavras. As vozes vão e vêm, como num pesadelo, ora trocistas, ora piedosas

- Anda comigo

e eu

- Não quero, não vou

apontando para as algibeiras com escárnio

- Nem sequer trazes esperança aí

com as janelas cerradas, ou talvez uma parede no lugar onde elas jamais existiram. Eu carregado pelas noites numa redoma de insónias.

Gostaria muito de ter podido saltar para aquele autocarro. Fazer parte do coro. Os meus gritos, porém, já ninguém se interessa ou esforça por ouvi-los. Ninguém os percebe. Observo a luz lá em cima a diminuir e qualquer dia

(qualquer noite)

não poderei alcançar-lhe. Estreita-se o buraco onde continuo a afundar. Onde perdi alguma coisa que, por não saber o que será, imagino que possa ser o mínimo para finalmente vir a ser tudo o que se supõe querer e ter.

Se existirão homens e mulheres de braços fortes para me puxar para fora não sei, não faço a mínima ideia. De qualquer forma perdi. Sinto que perdi. Sem querer fazer dramas, apenas dando aos ombros como quem se volta resignado.

Acho que perdi a vez de ser feliz.
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