7 de agosto de 2008

ramos


Why the dark, before the dawn?, por Paulo Bizarro em 1000 imagens

para José Gonçalves Ramos (1927-1993), meu Pai


Sempre fui bom ouvinte, sabes disso, apesar de nem sempre mostrar muita paciência, mas sem nunca te ter contestado. E se não te contestava era porque o que dizias parecia sair da minha boca, como se as palavras descendessem também no código genético. E depois veio aquele dia em que da tua boca não saíram mais palavras, que é o mesmo que dizer deixei de ouvir a minha voz na tua garganta. É verdade, eu não precisava de falar, tu discursavas e eu cá por dentro a confirmar as ideias que tínhamos em comum sem termos discutido sobre elas, e muitas das vezes limando o bico de uma dúvida, de um gene meio parvalhão a fazer ruído. Passaram quinze anos desde que tomei o teu lugar, ou seja, desde que a minha voz se produz agora na minha garganta e não na tua. Que já não existe. A tua garganta já não existe, Pai. Nem o teu sorriso, nem as mãos que eu admirava tanto. E depois o que então ficou por dizer, não que houvesse algo de novo a dizer um ao outro (eu ficava calado, os genes disseram tudo desde a minha concepção), mas porque a minha vida foi acontecendo sem ti. Há quem diga que os filhos são o prolongamento dos progenitores, e talvez seja isso. Eu via-me como a flor e o fruto, e a ti como a raiz e o caule que me amparava. Engraçado, o nosso nome, ramos. Eu cresci de um dos teus ramos, agora apenas a flor ou o fruto amadurecendo com o tempo, cortado sem sabedoria, aguentando o caule mas a raiz perdeu-se, extinguiu-se na terra. E ainda que eu sirva para os outros que me amam, para mim já não é a mesma coisa, como se a jarra ou a fruteira onde me colocaram me prendesse sempre ao mesmo lugar, sem lograr alcançar o topo, o mais alto, aquilo a que sempre aspiraste.

Passam os anos, e contudo cada vez dói mais a tua ausência. Talvez por ter a consciência que o adulto em que me tornei precisaria muito mais do pai que o adolescente que fui. E agora só tenho a voz interior, a palmilhar caminhos acautelado com os desvios. E isto é ser filho para sempre.

Que se lixe que seja um cliché, pai, mas ainda que tenhas deixado de existir como raiz e caule, existes cá dentro de mim e só morrerás quando eu me for também, calado, acertando no nada as dúvidas que, tenho a certeza, havias de esclarecer com a minha voz dentro da tua garganta.

E amo-te: só por isso choro. Pai.
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