3 de agosto de 2008

que o silêncio fale por nós

morte nihil certius est, nihil vero incerta quam ejus hora



para o meu mais querido amigo



É tão difícil falar sobre esta dor. Vale o silêncio nestas circunstâncias tantas vezes quantos são os grãos de areia que cabem num punhado a esvaírem-se entre os dedos. Não será mais do que isso: o silêncio esvai-se de nós com a lenta passagem do tempo até que o pudor deixe de existir ou peça grandes cuidados. Até que possamos compreender um pouco mais sobre isso da morte, e sobre o amor, e sobre a amizade. Aquela amizade que sabemos ser para sempre, que não tem floreados nem cerimónias. Onde apenas e ainda o pudor. O pudor de dizer que te amo para que os espíritos se sintam quentes, reconfortados o melhor possível dentro da ternura, da generosidade. Mais do que existe entre o sangue de irmãos, compreendes? Não interessa o que se diga, o que se pensa, o que está estabelecido. É somente importante o que se sente, o que existe verdadeiramente.

Assim, só temos que esperar que o silêncio cumpra o seu papel de curandeiro, e de nos mantermos unidos, a partilhar não só as dores agudas com que a vida nos acutila, mas também as alegrias, o que conquistamos de bom.

Deixa seguir o cadáver que já não te é nada, já não nos pertence, pouco ou nada significa. Os nossos mortos aprendemos a viver com eles cá dentro. Continuam vivos enquanto vivemos, porque o amor imenso é assim, transporta-nos todas as pessoas queridas que desejamos continuar a ver como se tudo fosse eterno. E por isso entendes o egoísmo de tão nobres sentimentos. O cadáver é apenas o pó, condição do que vive para dar lugar. Não os espantemos, não nos espantemos. Levamos os nossos mortos bem vivos dentro de nós até que surja a nossa partida, pois «morte certa, hora incerta». Que é quando realmente tudo se acaba, ou pelo menos soubemos que afinal estivemos vivos.

A tua gargalhada também é a minha gargalhada, como as lágrimas são também de ambos. Não temas: sofro sempre contigo, o que te dói, dói-me. Apenas o silêncio: deixemos que entre e se instale para que te diga, entre o pudor, o quanto te amo.
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