10 de agosto de 2008

não há porque ter título


(autor desconhecido)


Não estamos em casa, e o telefone trina durante uns vinte segundos. É um esquisito, e tem a mania do poliglotismo. O frigorífico estremece como que um arrepio, marcando a sua superioridade em relação aos restantes habitantes da cozinha. A máquina de lavar roupa abre-se num ó meio amuado, tem todos os tecidos promiscuamente compactos, que lhe pesam como dores de cabeça. O micro-ondas está adormecido numa paciência branca, refastelando-se de frescura. Haverá a hora em que padecerá de sufocante calor, colocando na torneira um olhar de inveja.

Os móveis de madeira sussurram espalhados pela casa. Não se ouvem as suas queixas matinais, de gavetas arrastadas e portas chiando. Sussurram porque gostam do silêncio. Televisores, rádios e demais família são os mais impacientes: é como se lhes ouvisse um tamborilar de dedos sobre uma mesa, ou um pezinho irrequieto sobre o chão: é um formigueiro que lhes dá nos leds dos seus stand by.

Mas quem guarda tudo isto com ar de respeito imposto é a imponente porta, mais a tagarela da fechadura, sua companhia de uma vida inteira.
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