27 de julho de 2008

flor de narciso




para António Lobo Antunes



Venho visitar o lugar ocupado pelos mosquitos de verão, o velho tanque repousando a fresca água da velha fonte; e acontece que me seguem os instrumentos de escrita e leitura, ferramentas confidentes do artista, para a labuta das palavras sobre um tampo de mesa mal aplainado mas marcado por gerações de escribas e leitores dos serões onde a poluição ainda não conhecia o comprimento das ondas hertzianas. Sento-me no banco tosco e vou adaptando a minha fisionomia à procura de uma posição confortável. Um carreiro de formigas atravessa na frente dos meus pés. Cauteloso como um monstro delicado, tenho o cuidado de as não pisar. Estendo a vista para o pomar em frente, reconheço umas árvores e outras não. A erva alta, rebelde. O sol deslizando para trás de uma colina. Fico por longos momentos brincado com a caneta entre os dedos. Logo faz-se noite e o papel ainda branco. Após uma pausa, que não sei dizer ter sido breve nem longa, escrevo o meu nome, de letra enviesada, à mercê dos relevos do tampo da mesa. O meu nome e mais nada. Levanto-me, estico as pernas, espreguiço os dedos. O meu nome à luz parda do entardecer. E com tanta coisa de que poderia ter dissertado. Ali, o meu nome, agora riscos até a noite engolir a brancura do papel. Não faz luar nesta latitude, e o meu nome existe, ali, depois de abandonar o local, para assistir, do outro lado, o romper de um novo dia. O meu nome. Eu. E uma flor de narciso ao lado, no tampo irregular da mesa onde escribas e leitores mais antigos.
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