6 de abril de 2007

séculos

Tocas-me com as feridas, os dedos soletrando a dor e o sangue caído nos cravos por florir

(de onde os cravos? nas tuas mãos, nos nossos olhos?)

inquieto-me com sonhos onde vives depois de morto e voltas a morrer com a mesma resignação com que a humanidade te mata, uma e outra vez.

Foram cobertos de sol e luas os teus séculos e o sangue esmorecendo com o verde das invejas e das iras, criou bolor sobre a terra tornada pálida deserta amarela

(a humanidade).

E só por pudor que te beijam a cruz. Poucas lágrimas vertendo brilhos de nostalgia em cada gota caída enlameada no pó. Por pudor e arrependimento vagos. Mas esta humanidade sempre preferiu a mesma face que esbofeteia, movida de luxúria e gula

(onde se encontra o teu olhar?)

- por pudor?

Por pudor não violo a vida, programada há tanto por te entender. Vou acreditando que a meio caminho do sonho

(onde morto, vives e vens para morrer)

seja a única esperança para que em uníssono possamos proferir, em jeito de profecia antiga, o quanto

- Tudo está consumado.
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