4 de março de 2007

onde és?

Onde é a terra, onde é a raiz que te afirma sob as bátegas e o vento, onde é o céu? Onde é a mão que te afaga, onde a água que te alimenta, onde a porta esconsa e roída pelo tempo? Onde os pulmões soprando o hálito morno, onde a boca que os dentes cerram, onde os olhos postos no horizonte, onde a lonjura?

Onde

(nesse dia)

te doeram os nós dos dedos de tanto apertares o nada, onde a voz rouca e quebrada, onde

(nesse dia em que te levaram)

a memória e os cavalos fumegando os cascos com a fúria de um grito, onde as pedras que rolaram, onde

(nesse dia em que te levaram para onde a sombra mora)

os gatos pardos e os pardais assustados, onde a pólvora e o invólucro, onde a golfada e a mão apertando o sangue, onde o cigarro caído, onde a saliva e as lágrimas e o suor, onde

(nesse dia em que te levaram para onde a sombra mora e a noite não morre. Não deixes secar a raiz, ou ruir a terra, que não te derrubem as bátegas e o vento, que te não desabe o céu como uma mão que abafa, onde)

as mãos empurrando a porta esconsa e roída, onde o tempo para vacilares os pulmões, onde os cascos da besta fumegando hálitos sobre a lonjura, onde tu

(onde tu?)

onde és tu entre a pólvora e o invólucro, onde a dor da voz de tanto apertares a vida numa golfada, onde é a terra

(onde é?)

que o tempo bateu e as pedras esterilizaram? Onde és, o que foste?
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