29 de abril de 2006

ocaso

Olá. Vim espreitar o ocaso da tua razão plantada sob a colcha tecida por antigas paixões e sorrateiras solidões. Têm estado uns dias óptimos, não tens reparado? Já não me lembrava de uma primavera assim, tem sido sempre a água o retrato cinzento das janelas… Mas agora vêm-se as pessoas de roupas leves, as esplanadas povoadas de cerveja, o rio espelhando o azul do céu… Banalidades, dirás tu, para quem apenas lhe resta uma colcha e longas horas de sono. O teu corpo parece cristalizado entre as sombras da humidade que a velhice das paredes deixa a descoberto. E por mais que afaste as cortinas, a luz que vem da janela não vence a lugubridade do quarto. Os teus movimentos respiratórios são um acorde monótono que não lembra a vida. Estou de saída, e pouco te importa, não é? Queres mesmo saborear a despedida transformado no bolor por onde ruirá o sentido da tua existência. E a destas paredes. Não vale a pena a mão que te estendo, já não sabes dos afectos. E assim te deixo, no remoer das vagas memórias que ainda terás. Mesmo que a última seja a cor desbotada da colcha onde deitaste a vida a morrer. Até amanhã, se o dia para ti voltar a nascer.
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