20 de junho de 2008

o telefonema


foto de Ana Rita Vaz Cruz em Olhares


Dá-me novos motivos para passar adiante. Não te fiques pelos mesmos argumentos, como que a driblar o meu raciocínio. A carne é fraca e o vinho do jantar não ajuda. Seguras-me no telefone com um timbre de sedução electrónica, afecta a ruídos alheios, interferências, do “que-foi-que-disse?”.

Soar-te-ia estranho se te cortasse a algaraviada dos números e das questões sem contexto com um convite fora de horas? Fazer-te pensar: que bom seria sair deste burburinho de simpatias ilusórias para tomar um copo, refrescar os olhos e os ombros, a noite até parece morna, convidativa, confortável.

Mas não. Aguentas-me no discurso e insistes. Eu vou agradecendo a voz doce, quase terna, sem dúvida quente, ainda que com ruídos de fundo, interferências, do “pode-repetir-se-faz-favor?”. Não fosse o meu bocal confidente de amargas solidões e tristes desejos, terias ouvido precocemente, num cliché gasto, o tom seco de um

- Não estou interessado.
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