11 de junho de 2006

esquina

O passo dobra a esquina saindo de encontro a outras sombras que o ruído produz e oculta, naquele declive onde o olhar não penetra senão pardo. O vulto avança e desvia quaisquer arestas de hesitação arfando abafado pela distância, e resoluto de toda a sombra que alimenta. Abandonado num tempo abstracto de uma solidão réptil, há um cão rosnando e, subindo na negridão, uma coruja assobiando, ambos num abraço com a ténue luz que brilha tosca e taciturna, informe. Únicas vozes que testemunham, como água que arde evaporada na atmosfera quente de tudo que se levanta sem poeira. Dobrada a esquina, o passo prossegue suave sem ruído. É invisível e some por uma incógnita, como desde sempre e nunca.
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