3 de junho de 2008

escrito e dolorido para Eunice


Ao fim do dia..., por Marco Ricca em 1000 imagens


O céu a findar a tarde e os cães latindo. É quando o silêncio se rende passivo, nunca chegando a vencer tudo, balbuciado pelos ruídos. E depois a noite, signo que nos separará.

Dizes-me para aproveitar o momento, para quê sofrer por antecipação. Porque o tempo não pára, Eunice. O tempo não me dá tréguas. O sol cai entre o chilreio dos pardais que recolhem nas árvores frondosas. Sinto-te os dedos tacteando-me a inquietude das mãos, o teu olhar muito meigo e muito sereno, sempre cada vez mais sereno como se o céu te findasse a ti também dentro da sua bocarra escancarada de penumbra. Vagarosa. Mansinha. Traiçoeira.

E eu aflito com a exactidão dos ponteiros nos relógios, os ponteiros demarcando fronteiras. A nossa partilha tem fronteiras, Eunice. É um país em estado de sítio, com recolher obrigatório e sob a lei marcial. Porque dizem-nos – apesar de nos dizerem na cara sem que ainda tivessem verdadeiramente percebido –, dizem-nos que somos proibidos.

Proibidos a partir do momento em que terás que tirar essa máscara de mulher livre e regressarás à tua condição de mãe exemplar de três filhos, da fiel esposa de um importante executivo qualquer que nunca soube bem quem é. Eu sou apenas o entretanto nas horas vagas, ou o depois nas horas em que te perturba a insónia

(a consciência, o amor, o amor-próprio, Eunice?).

O tempo no céu e nos relógios lutando contra o meu orgulho desmanchado, inerme. Porque os meus olhos para ti não trazem defeitos, não trazem preconceitos, só te trazem – tão egoístas! – a ti.

Como posso aproveitar o momento se milímetro a milímetro – como praga que alastra – vais deixando que outra vida te aparte de mim. Os teus beijos são já tardios, tombam sôfregos e remediados na inclinação do meu ombro convulsivo. O teu corpo, poucas horas atrás baluarte da minha felicidade, recolhe-se em modos sorrateiros, possuído pelo medo, pelas palavras, pelos filhos, por eles: todos eles que não cabem entre o espaço que nos vai afastando, de promessas reatadas.

Magoam-me as promessas, Eunice. Magoam-me os teus dedos tacteando as lágrimas das minhas mãos. E magoam-me as noites. As tuas, as que te pertencem sem mim.

Crê-me escrito e dolorido. Sou personagem de tragédia onde venham a caber as lamechices que te encantam, as fantasias que te orientam, que te movem, que te

(que te moveram até mim, que te moveram a conquistar-me?)

que te constroem, enfim, para mim. Eu que não gosto dos romances de amores exacerbados, das lamechices, dos lugares-comuns.

Olha para mim, Eunice: o céu apagou a tarde, a noite veio para te resgatar à norma. Vais partir? Fuzila-me, acaba comigo. Engole-me Eunice.

Para que o dia me não volte a nascer, grávido dessas mesmas e viciadas falsas promessas.


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