12 de fevereiro de 2007

diz-me

Diz-me o pedaço de terra onde desceste para te ir ouvir as pedras e as raízes, diz-me em que dimensão são os fantasmas, feitos espirais de fumo que sobem do meu cigarro, diz-me que vozes há para que as grite, e se manifestem, diz-me que tudo não é o fim, que quando findaste eu renasci para te ter novamente, diz-me.

Com a tua voz calada na sombra, diz-me.
Com o teu pensamento cavado no nada, diz-me.
Com os ossos inventando a linguagem dos mortos, diz-me.

Se há outras terras, se outras covas onde nascem os jacintos, se mares e rios no fogo que nos consome, diz-me. Diz-me porque latem os cães no dobrar dos sinos, porque o medo aflito com as sombras nos espelhos, diz-me das mãos trémulas, da cabeça em rodopio, do desmaio lento ou convulsivo.

Onde há a verdade, diz-me. Se tiveres vontade, diz-me.

Para que tudo pasme e a física se transforme num caos de insónias sem haver noite, sem que resistam dias, para que os relógios parem ou não signifiquem que tudo o que houve depois de ti foi mesmo a sério, mesmo a doer, se foi o que eu vi.

Diz-me, para que eu acredite. Nas aves. Nos esquilos. Nas formigas indiferentes à catástrofe humana.
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