9 de abril de 2006

descartáveis

Somos descartáveis, peneirados com insistência até ao sal da nossa pele. Marcados, cambiados, clamados, vendidos ou emprestados. Na tua voz colocam um selo de garantia que não podes quebrar - estás ao abrigo de um procedimento interno, de um contrato.

Até que a terra te engula, sabias? E certo dia tudo terá acabado, assim como se esvai a cor dos jardins à medida que a tarde avança como pluma sobre a vida e os relógios. É o gesto de um cigarro, ou o folhear de um livro. E tu repeles a ideia como se acreditasses que alguém fica para semente

- Que parvoíce estás tu aí a dizer?

e ninguém é semente, porque ninguém amadurece completamente para a deixar, para o ser. Ficam sempre resquícios de algo que não se fez, um sonho qualquer que fica sempre para trás, adiado constantemente

- Agora não pode ser, talvez mais tarde,

de modo que, quer queiras ou não, um dia tudo terá acabado, e como ficarão os objectos, as roupas, os sítios

- Onde está fulano?

para todo o sempre órfãos ou muito mal adoptados por quem fica.

Então falam-te da obra deixada, da memória que deve ser respeitada, e coisas assim, tão circunstanciais como a própria partida, que é somente um simples momento e nada mais.
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