15 de novembro de 2005

de pé

Aguenta-te como as árvores. Dizem que morrem de pé, escancarando a boca dos ramos num esgar de perene agonia. E sem mudar de figura secam até ao esqueleto, depois de levadas a enterrar no húmus do tempo. Se as esquecem, serão ingratos. Por isso deves aguentar-te firme, assim como uma árvore. Ignorando intempéries, catástrofes de maior calibre. Cada dedo teu o ramo que deixará, ano após ano, de ver nascer as folhas dos teus gestos. Secarás até ao esqueleto, e se o tempo também te recolherá, terás ainda o perfume da terra que te plantará na língua toda a eternidade.

Por isso, em vez de pensares em tudo o que te digo e te lembrarei consoante o embalo do vento, faz com que floresça o que és, e te amadureça no peito o melhor do fruto. Se te esquecerem, morrerão de fome, deitados como qualquer folha velha varrida na sarjeta. Porque as árvores, pois que são nobres se nos dão a sombra e o fruto, morrem de pé. Não tenhas medo da tua boca escancarando o mundo.

Latirão os cães o dobrar dos finados. Deles não se esquecerão nunca.
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