5 de agosto de 2007

as viúvas



As viúvas saem para o sol a carpir as moléstias do caminho, espezinhando areias como quem cospe para serpentes rastejantes. Sacodem a sede entre os lenços negros, de olhos postos no nada como se a paisagem apenas desarranjos de cinzas. Saem com esperanças entre cruzes latejando nos peitos, e nos lábios murmúrios que soletram o segredo da amargura do mundo num dia solarengo e esplendoroso.

(opus domini)

As viúvas herdam os rostos das sombras, os fantasmas paridos do passado. Os intervalos do granito. Clamam de mãos engelhadas aos céus, orgulhosas da frigidez das suas vulvas. Martirizam com rosários as suas carnes velhas, seculares.

Definham de saliva. Com o seu sorriso morto entre as gretas da escuridão. Não falam de cor, não conversam: as ladainhas sobem quilómetros de estradas votadas em sacrifícios para espiar os pecados do mundo.

(ora pro nobis)

Salvam para a eternidade os netos do mundo. Salvam os corações ao alto. Intercedem, prevenindo apocalipses: um punhado mais de areia – apelam. E louvado seja o senhor.

(dominus vobiscum)
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