19 de maio de 2008

tango


autor desconhecido


Piazzola faria um tango com a raiz do teu olhar. Dança nos teus olhos a ferocidade do sangue latejando nos teus lábios. O sangue que bebe do meu suor a luz quente do teu corpo. E na multiplicação dos gestos tocar-te é estender-me a um fogo que só a madrugada, com a maciez dos beijos, poderá tornar mais ameno. Antes disso é a carne, é a pulsação. Dentro de ti o mundo renasce, esperando explodir em mim.

Debruças-te sobre a minha boca e fazes saltar os seios que se penduram como dois grandes sinos a velar de carne a minha saliva.

O orvalho vai caindo na orla dos teus beijos, despertando-me a madrugada do corpo. Cerro os olhos vagarosamente, sereno, limpo, acompanhando o bocejar das flores na raiz da alvorada. Dizes-me coisas com o toque delicado da tua pele, inventas o verão ardendo no interior das tuas coxas. E na manhã já colorida, mergulhas de boca esfomeada à procura do ventre, para que o frémito seja um redentor bom dia terno e adocicado como a flor dos morangos adormecida a nossos pés.

Respiras-me e toco-te, enlaçada pelos flancos, e os dois corpos fremindo ao som deste tango. Faço-te prisioneira do meu sangue neste fundo de terra com gemidos, onde, para prova futura do que somos, me plantarei como semente de trigo em seara jovem.
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