11 de maio de 2008

ode ao que te lembrares



para onde esta escadaria imperfeita de musgo e pó
rasgada a granito ancestral agastado pelos passos dos mortos
para onde o horizonte emprenhando da luz de cada olhar que passa e finge
para onde as plumas fétidas das pombas moribundas
dilatando asas na praça onde chove de verde
a oxidação das estátuas de bronze
para onde este jardim desarranjado e daninho com pés de medronho
arreganhando as raízes ao chão de cimento estourado
para onde caminham os velhos suplicando de soberba a vida que já não têm
com a boca de gula gaguejando gengivas por eternidades estéreis
para onde os gritos distantes dos prédios altos embandeirados de roupas
estouvadas ao vento, as molas nos arames multiplicando as cores
para onde os gatos pardos nas sombras das esquinas a feder
detritos e reflexos de faróis indiferentes na passagem
as nuvens enlutando os céus com o vento como lobos

(as molas da roupa na vez das flores)

para onde os cadáveres dos animais aninhados na estrada feitos peregrinos abandonados
para onde esta pressa, para quê correr na iminência da morte súbita
porquê as garagens trancadas e as janelas corridas e as portas cicerones antipáticos
para onde o vinho amargo, as cascas da fruta, os lençóis das prostitutas
para onde o cascalho velho, e a calçada entupida das últimas lamas
para onde cidade, estendida de gangrena, condoída de pus e ratazanas
para onde as palavras nos teus muros
para onde os muros brancos

(e os baldios embandeirados de roupa aflita nos arames
as molas multiplicando-se em cores o jardim daninho)

para onde as escadarias onde moras povo solitário
para que braços e forças as pontes e os boiões de desespero no rio

(para onde os corpos atirados como feras de circo)

que te resta, cidade aleijada de hospitais com limo e vidros estilhaçados
para onde o pão duro farejado pelos cães como lobos
como lobos como uivos como o vento afligindo de gestos
os estendais no cimo dos prédios arreganhando gengivas de bolor

(as molas da roupa como frutos, como flores)

para onde as árvores decepadas, para onde os autocarros
como se dois invernos por cada ano nos rostos estampados dos que lá vão dentro
para quem euromilhões a afastar as funestas janelas da miséria
para onde as lágrimas agora que os rios, agora que os braços para as pontes
transitando despedidas

para onde em que lugar a que tempo
– cairá sol como pétalas, abrirão as chuvas como agulhas? –
móveis de inquilinos despejados
papeis arrastados, uma queda, um joelho sangrando
a malha da meia desfeita, o rímel pelo rosto como se não conhecesse o vale que abre
como virgem ribeiro entre as rugas que descobrem a solidão
a fome, a fome
a boca aberta e negra de fome
para onde?
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