9 de maio de 2008

fabulação


(daqui)


Fico sem graça porque me apanhas tão desnudado que me assemelho a um virgem tísico em núpcias todo cheio de tiques e timidez perante a noiva. E ainda que tu – tal qual a afectuosa noiva – me abras os lençóis e me convides a entrar no leito a teu lado

(vais rejeitar que não a teu lado, que não tens o talento)

eu continuo desajeitado e hesitante, tremeliques das pernas, cheio de vulcões na pele áspera, teimando em fazer-me invisível, espreitando em que buraco me hei-de enfiar. Que noiva me quer assim? Tísico, borbulhento, coberto de tufos de pelos, desajeitado, desconfiado e hesitante?

As palavras acumulam-se a uma velocidade tonta dentro da minha cabeça e a composição acaba sempre por descarrilar. Surge um texto a espaços de dias que são as sobras de um sonho, os esboços de uma epopeia, os escombros. São principalmente os escombros e a necessidade de libertar o meu espaço interior de tantas palavras que se acumulam.

São acidentes. São as borbulhas, os tufos de pelo. Os tremeliques. E vejo ao redor que não existe buraco onde me enfiar, vejo-te multiplicada em vozes que surgem de onde não suspeitava sequer um murmúrio, seduzindo-me

- Continua escrevendo.

E eu, como o nubente tísico, vou dando passos muito curtos, assustado com a maciez dos lençóis, mas – confesso – deslumbrado com a beleza do teu rosto, os contornos do teu corpo, com uma incerta expectativa do prazer que nos teus braços

(aos teus olhos)

irei encontrar, mimando o meu umbigo, mesmo que os tufos de pelos o encubram.

Se então explodires num êxtase desenfreado

(por favor não finjas)

eu prometo olhar-me novamente ao espelho e talvez reencontre o que já dei por perdido.
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