15 de maio de 2008

desta mão


(daqui)


Tirai-me daqui este papel, desta mão que não escreve. Tudo é tão superficial quando encolhemos os ombros e deixamos correr o tempo dentro de uma fadiga. De uma preguiça quase sem remédio. Não interessa quantas janelas, quantas cabeças ao longo da avenida buzinada de automóveis impacientes. Tudo se escoa até que uma sombra venha resgatar todos os ruídos e todos os movimentos. Tirai-me a ansiedade tamborilando sob os meus dedos, o meu olhar na paisagem abstracta escolhendo quais os sentidos. Não tem importância a ausência das palavras, se todas as teclas estão batidas, se todo o molhado está chovido. E que as bocas se cansem de todos os diálogos, os braços de todos os protestos, os punhos de toda a raiva. Tirai-me daqui este papel e as ideias, desta incerteza monótona. Sem luz que incomode. Tirai-me daqui pois não sei o que farei quando tudo gela.
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