15 de abril de 2008

hoje


foto de Gonçalo Esteves em 1000 imagens


Hoje apenas tenho a dizer-te que não sei escrever. Vieste numa correria de ave desconcertada a cacarejar qualquer coisa sobre uma ideia genial, segundo a tua própria expressão, suspensa num sorriso escancarado. A boca e os lábios assim sorrindo seguiram os meus gestos até os músculos esforçados começarem a esmorecer. Não achas boa ideia, perguntaste, numa clara intenção indirecta de indagares sobre o meu silêncio e a minha indiferença face à tua estridente alegria. Sentei-me num movimento cansado, apoiei desanimado o rosto entre as mãos

(quando foi que estive também assim?)

e dei-te o mesmo valor que dou à secretária, às estantes, ao papel, e restantes objectos que perfilam assimetricamente nesta sala. Os livros sempre os considerei como objectos vivos, como qualquer vida vegetal, não se mexem, não se emocionam, mas crescem sempre que os leio uma e outra vez. Ainda assim, e perante o meu rosto mudo apoiado nas mãos, estão como qualquer planta que precisa de cuidado, podar umas folhas velhas, mexer a terra, regar… Mas há dias em que nada parece ter qualquer importância. Nem mesmo quando vens de sorriso escancarado, de ideias brilhantes a querer salvar o meu dia. E encho-me de ternura por ti quando compreendes que a tua saída em silêncio e em respeito pelo meu estado de espírito é a melhor atitude a tomar: hoje apenas tenho a dizer-te que não sei escrever. Volta, por favor, quando te deres conta das folhas verdes e viçosas, quem sabe venha a nascer então uma flor com que possas adornar os teus cabelos…
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