7 de abril de 2008

clausura


(daqui)


Os dias foram crescendo e sem que eu desse por isso

(dormindo, o trabalho, comendo, o trabalho, dormindo, o trabalho)

já as margaridas cobriam de branco os prados rebeldes de vento e verde jovens. Foram as chuvas, foi o sol adocicando as tardes, foram as chuvas novamente, e é Abril. E ora torna o sol, ora tornam as chuvas, de levezinho levantando o aroma da terra. O hálito perfeito espalhado como uma brisa, enquanto eu

(comendo, o trabalho, dormindo, o trabalho, comendo, o trabalho)

a esquecer-me no mofo dos papéis, entre paredes cariadas de humidades e bolores, com a fruta magoada nos dedos e os lençóis doridos no meu corpo.

Onde existo?, pergunto ao espelho que me reflecte de esguelha, como se a resposta

(dormindo, o trabalho, comendo, o trabalho, dormindo, o trabalho)

estivesse na fresta da janela esconsa de estores apodrecidos pelas chuvas que foram, pelo sol adocicando as tardes, e entre os sonos recordo o melro que mora sem sombras nem bolores ou lâmpadas com o seu ar de fadiga contra o fio de fumo dos cigarros queimados; o melro do outro lado da frincha onde um bocadinho das chuvas, um bocadinho do sol, perfeitamente alheio ao

(comendo, o trabalho, dormindo, o trabalho, comendo, o trabalho)

sabor amorfo da fruta magoada. E dos lençóis doendo-lhes o meu corpo. As únicas margaridas que pude ver enquanto tudo acontecia estavam numa fotografia a que o tempo deitou alguma piedade. O melro pareceu-me assobiar sempre.
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