9 de abril de 2008

ainda mais


(daqui)


E volta a cadência da chuva entorpecendo-me os passos, os pés baralham-se em nós consecutivos junto aos lençóis de água, a cabeça à deriva na humidade, e os meus braços embrulhados num cinzento - nem por isso frio - que tinge a paisagem agora cercada de telhados brilhantes e gruas em movimento.

Eu havia saltado da cama um pouco aos trambolhões, completamente baralhado numa trapalhice infantil, para escrever um sonho sobre fábulas, eu vinha escrever sobre fábulas, e os pés faltaram-me, atados num silêncio de nós de água que desciam sem paciência dos lençóis - nem por isso frios - de uma cor parda que só as noites assim sabem delicadamente espalhar sobre a tela dos sonhos, esses estranhos edifícios da memória, cujas gruas em constante movimento são os desejos desarmados.

Eu vinha entorpecido nos passos da chuva, nesta cadência melancólica da humidade, que embrulhando-me os braços em nós de cinzento, me atrapalhava o pensamento - nem por isso frio - à deriva sobre os telhados como fábulas e

(o que veio a ser então, o que foi, o que me sucedeu?)

tudo o que havia para contar era um despertar fustigado pelo cansaço e a vontade de dormir ainda mais, ainda mais, ainda mais.
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