15 de março de 2008

voou


(daqui)


De costas e com medo: invejava as gaivotas que pairavam sobre ele, gritando o perigo da falésia. Tinha todos os músculos tensos e o rosto pálido, agreste. Os olhos fechados como quando o sol dói.

-Voa…

Um vento de norte cortou-lhe a respiração. Tomou dois passos atrás, retesado de medo e espanto. Abriu por instantes os olhos a fitar ainda o mundo de frente.

- Como será?...

Lembrou-lhe tudo: os cigarros esquecidos no bolso, o post-it no frigorífico desenhando a despedida, o copo de uísque que não chegou a beber. O molho de chaves balouçando na fechadura da porta que afinal não fechou. O carro coberto de pó e rodas enlameadas que não quis que o acompanhasse.

Só a trouxe pela mão a lembrar-lhe.

Lembrou-lhe os rostos e as vozes da véspera. Os suores que vieram de madrugada. A insónia. A boa noite entusiasmada do amigos, o bom dia indiferente da dona da pastelaria onde bebera o café matinal.

Lembrou-lhe as notícias do jornal que lera com a ânsia da premeditação e o fatalismo dos sinais.

Lembrou-lhe ela. E ela ali presente a tocar-lhe a mão. Era ela que lhe lembrava isto tudo.

- Como serei?...

Uma gaivota rasou-lhe o rosto, de bico estridente. Fechou os olhos, a esquecer o mundo de frente. Mas avançava de costas, como que recuando a um princípio de nada.

Tomou mais dois passos atrás. Ficou lívido: nas costas sentia o rugido do mar como uma boca de inferno escancarada.

- Voa…

Não se deu conta que no último passo atrás largava o chão. Sentiu a gravidade. Voou.
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