2 de outubro de 2007

agora sim

Agora sim: o rebuliço manteve-me acordado e posso respirar sem sentir o peso que ardia sobre a minha voz. Já não estarei aqui pelo quanto aqui estive. Vou erguer-me na escadaria onde corríamos brincando às escondidas, e rindo, sempre rindo. Não fazia pena quando chovia: fugíamos a ver o arco-íris. Não importava o vento: ululavamos aos papagaios de papel no sete-estrelo. Claro, e sempre sorrimos à cor dos malmequeres e das papoilas e sabíamos o sabor da brisa nos dias mais quentes. Devorávamos os gelados comprados com moedas gastas e nas mãos ficava o açúcar que se pegava entre os dedos. Éramos assim, e brincando à escadarias, erguia-me pela escondida voz que ardia sobre o leito, sorvendo a chuva que ululava ao vento, nas fotografias via-se o arco-íris fugindo para o seio dos malmequeres e das papoilas que gastávamos com moedas pegadas pelo açúcar da infância, e tudo não era aqui conforme foi ontem e é hoje e não será amanhã, porque agora sim, meu amor, se acordei, tenho o peito refrescado para te recitar, na voz que se afina beijando a pluma da manhã, o soneto com que adormeci:


Dezarrezoado amor, dentro em meu peito
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força, faz, desfaz,
sem respeito nenhum, e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

Doutra parte a razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo: em fim vem o seu dia.

Então não tem lugar certo onde aguarde
amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?



(soneto de Sá de Miranda)
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