11 de março de 2008

a suspensão das respostas


(autor não identificado - daqui)


Dá-me razões para continuarmos adiante, pedi. Procurei por respostas e o teu rosto devolveu-me uma voz ausente borbulhando pontos de interrogação que se suspenderam no olhar indiferente que me dirigiste.

E os teus dedos: ajustando os nós brancos nas articulações com a ansiedade pousada irrequieta sobre o teu regaço como se um bicho assustado. Estudei a firmeza dos teus joelhos, a saia justa sobre as ancas e as coxas. Plantada como estátua fria. Uma malha caída nas meias elucidando-me o desmazelo, os sapatos revirados pelo constrangimento dos teus pés inquietos.

Levantei-me da cadeira à tua frente e deixei divagar sombras minhas pelas paredes. Pareceu-me que não tínhamos vizinhos naquele momento, embora tivesse distinguido o lento arrastar de uma chinela algures

(de cima, de baixo, do lado?)

ou talvez uma gaveta a abrir. É isto no que se transforma o silêncio: sons vagos entre os pensamentos que fervilham, e uma vez por outra

(quantos minutos decorridos?)

o frigorífico estremecendo. Do lado de fora das janelas alguma coisa também, indefinida,

(espera: um cão que late, uma porta batida?)

e afinal tudo isto eram segundos apenas: o tempo da paciência que esgotei entre ter-me levantado e retornado à cadeira colocada frente à tua indiferença de estátua. Porém, pensei ter visto um sorriso a esboçar-se de esguelha do teu rosto, ou quiçá um espasmo, não sei bem, algo que conseguiu refrear a ira com que tencionava investir em ti.

- Queres dizer alguma coisa, porra?!

A tua boca cuspiu-me como uma víbora que ataca de supetão a presa, ou a ameaça, e os meus queixos caíram: não quiseste dar-me as razões para continuar. As tuas ancas ainda permaneciam sem qualquer deslocação, e os sapatos quase voavam de frenesi. Só os nós dos teus dedos deram sinal de alguma acalmia, aliviados da pressão. Mas o peito ofegava. Ofegava o peito em ambos, gesticulando um para cada lado a suspensão das respostas desenhadas em pontos de interrogação que vogavam num falso silêncio.
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