31 de março de 2008

dizer silêncio é ouvir a distância chorar


autor desconhecido


Escrever – sobre que escrever? Talvez o ócio e agora o silêncio da noite. Dizemos silêncio e sabemos que nada é silêncio. Será ouvir um distante soluçar?

Não vive em silêncio o nosso pensamento. O pensamento como rato farejando a noite, o pensamento como rato, na calada. O rato é animal que vive do silêncio, do pranto das distâncias.

Escrevo sobre como não posso ser noite nem rato, sobre o medo e a solidão. Não pode haver nem deve dizer-se silêncio. Dizer silêncio é ouvir a distância chorar. Dormir a tarde com a chuva embalando a vidraça da janela. Dizer silêncio é respirar o vento ou a brisa, é envelhecer com as mãos sobre o colo. O silêncio é uma ruga escrita com lágrimas. É dizer a pedra que não vê. A madeira que incha e seca consoante as marés. É o retalho das areias. É um pó. O luar. Falar emudecendo a palavra sim e a palavra não. É dizer uma morte. É chorar uma morte na distância. Como tudo agora vibra, confuso. Apenas ouvimos o horizonte: é o lugar dos outros. O lugar que podemos escutar e chamar

– silêncio!

ao sossego macio dos espíritos, à mansidão mágica dos corpos adormecidos. E a manhã, despertando a distância, enxugará com a sua brisa azul os nossos olhos. Ou nos sacudirá a água com um arrepio cinzento.
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