10 de janeiro de 2009

sílaba


Do you miss me?, de Tiago Martins em 1000 imagens


Sílaba a sílaba construo a palavra, e sou eu, com as mãos em sobressalto lentamente afagando o meu corpo. A terra é o equilíbrio para os sentidos desentendidos, os teus dedos um pássaro que voa sem tino sobre o colo da minha memória. Deixo as horas abaterem-se contra o muro e mil pedaços se formarão no horizonte. Dos escombros se abrirá caminho

(lentamente)

até onde o chão verdejará e as feridas dos meus pés fecharão. A tarde morre como nascem as manhãs: vestida de crepúsculo, tendo a velar-lhe o corpo morno o ruidoso fustigar do vento e o gume do frio

(é janeiro).

Por cada momento de dor é um prenúncio de morte, assim como o lento gotejar de uma nuvem anuncia a monção. As pombas partiram desta praça isolando-me numa solidão de ruídos em que cada aresta da calçada segue o rasto do meu passado. Dizes-me que depois de mim não há nada; posso afirmar-te, porém, que em nada sempre estive para ti. Então, para que não haja secretos adeus, deixa-me respirar o azul que desponta e, por derradeira vez, afasta-me dessa tua nuvem parda.

Apalpa-me com o teu sexto sentido e adivinha-me o medo que tenho dos corpos frios. Não me toques: lê-me, se me queres conhecer, e dar prazer. Agora chove pedacinhos de céu e de chumbo para abreviar a corrente branca e mortífera do frio, e chove dos teus olhos pedacinhos de ti, flocos do que te desespera e te contradiz ou o que refuta o teu sorriso.

Continuaria, e a negar, mas tudo nos seus lugares. Ao contrário do que imaginava os objectos não tossem nem sentem frio ou ardem de febre. Entardece e no meu rosto vai nascendo uma sombra presa numa fotografia que a memória desperta imprime no descer da noite. E todos os sons se calam respeitando o silêncio pardo e húmido da madrugada que vieste ver tranquila, para pisar o chão do meu pensamento.
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