4 de dezembro de 2007

insónias


fotografia de Hugo Félix em 1000 imagens

Se te perder, perco-me, e perder-te-ás.
(dez anos antes)

Corro pelas insónias como vagabundo de mim arrastando o desgosto de ti. A neblina nocturna adensou-se num nevoeiro cego pela madrugada dentro, varrendo a cidade ardida numa luz fosca.

E olhando a janela velada, escorro pelas memórias. Do dedilhar delicado das tuas rendas. Do desfolhar impreciso dos teus livros. Os teus olhos então cinzentos como agora a cidade lá fora

(em dias de sol espelhavam o esplendor do céu),

e a crepitação das brasas por trás dos teus cabelos.

- Acende a lareira, amor

pedias-me, de voz enternecida. Eu ateava-te o fogo, que se reflectia na humidade carnuda dos teus lábios. Dois ou três toros de madeira uniam-se na lareira pelas chamas libidinosamente provocadoras, atiçando. E eram então os nossos braços as nossas pernas os nossos corpos consumidos pelo impulso, um fogo ateado na inflamação dos lábios que se desejavam até às lágrimas. Corpos fremindo como se o mundo fosse apenas ali, durasse o instante em que perdíamos o equilíbrio de toda a periferia, do alheio, e os sentidos vagueavam entre o sangue e a voz na vez de nós.

Corro agora pelas lágrimas a multiplicar saudade com insónias. A neblina desceu densa sobre a cidade como se a tua ausência tivesse nascido no rio ou no mar, a instigar-me as madrugadas vivas de frio, clamando o ar gelado das solidões.

E olhando pela janela velada discorro a dor por tudo agora ser tão diferente de há dez anos atrás. Porque o eterno se tornou, sem aviso ou precaução, nesta insípida efemeridade. Tão absurdo de tão longe. Dez anos desde que nos perdemos em parte incerta.

Pelo menos o porquê? Nem isso.

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