7 de outubro de 2007

porque arde


fotografia de Hugo Félix em 1000 imagens


Doura a brisa que acompanha o estalejar da língua medindo no copo a sua sede. Sobre o rio vários e breves fulgores de céu espelham todo o estado de espírito que faz juz à leitura prazenteira. Deslizo sobre o fim da tarde com o dedo sobre as páginas e é um sabor multicolor que se vem na minha boca. Ela está do lado oposto, só, a apreciar a paisagem que se vai diluindo numa sombra lilás para um fundo quase negro, intercalado pela iluminação desmaiada das ruas. Obriga-me a penumbra a fechar o livro, na mesma consoante em que vislumbro o descruzar e cruzar das suas pernas doces de frescura. Sopram no silêncio os rumores da noite caindo, e um comboio ensurdece o eco sobre o rio, passando ansioso na linha mais lá para trás. Aproximo delicadamente as unhas junto à pedra que me faz de cadeira, de poltrona para o horizonte. A pedra arde áspera no céu dos meus dedos. Queria-a aqui, junto a mim, cruzando e descruzando as pernas, uma circulação sobre eixos imaginários, tagarelando parcelas de vida, coisas comuns. Vejo-a a entreabrir os lábios e é seda de rosa vermelha a insinuar promessas de beijos. Os olhos dela brilham e enternecem. A noite abre agora a porta para a cidade constelando na sua abóbada de faróis. Levanto-me convicto de que me espera. Hesito a ouvir a água do rio marulhando amores contra a costa. E imagino a sua presença acolher-me, de mãos vagarosas. Fecho os olhos como que... O sorriso dela levita-me no ar, perco o chão e a terra. Que farei, se tudo assim arde?


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