5 de outubro de 2007

na vez da boca


(daqui)


Não me preocupa a natureza dos teus impropérios. Vituperiosa já é a nossa existência grávida de equívocos. Somos feras assim que o sono nos afasta da inocência a mendigar atenções. Diz-se do mundo assim selvagem, do salve-se quem puder. E aprendemos a afiar as garras, a espreitar a vítima na próxima esquina. Saciamo-nos da miséria alheia ainda que a nossa seja abismal. Cuspimos para o ar sem dar atenção aos telhados de vidro, às cabeças que rolam imprudentes, imprecatadas do lixo e dos olhos gordos. Profetizam babosices as bruxas de picho riçado no lugar das melenas, e as fadas da ingenuidade encurralam-se lactantes num corridinho a salvar o mundo com estrelas e anjos e varinhas de condão. Já não há demanda para o homem, bicho cruel condenado pela caverna de onde nunca tirou os ossos.

Sacudo portanto os ombros, indiferente ao que me dizes, ao que me fazes. Virás na próxima esquina, quando de toda a delonga emergirem os teus medos encobertos - hoje são blagues, amanhã condenatórias heresias. E no ar sentirás um cheiro, uma sombra atroz, e nos teus ouvidos a morte arrastando covas à socapa. Mostrando-te os dentes a rugir.

E verás então quem fui, quem sou: o leão na vez da boca.
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