4 de outubro de 2007

confidente


(daqui)

Escrevo-te confidente de voz embargada de mágoa. Sobram os espaços entre as sombras, fragmentos de momentos que não vou poder esquecer. Nada sobra do meu olhar para lá do horizonte atlântico onde poiso o pensamento e me quedo ao frio ou à chuva. De garrafa de vinho na mão, a lamuriar o destino. E como tudo se esvai num gole, ofegante mas apaziguador, como as ondas que crescem furiosas e me deixam depois a rolar ternuras e mimos.

Lembro de ti como se fosses lanterna ou farol, embora perdido em águas turbulentas e de trevas arreigadas pelo pudor e pela vergonha. Lembro da tua boca, dos teus dedos cruzados como nós de madeira verde, e da forma como murmuravas encantos. Das tuas pernas apascentando perfumes e alvoradas. Lembro-me das tuas mãos: lívidas, tímidas, a contar um rosário. E no entanto tão solícitas que guardavam segredos de toda uma vida. Graciosas estendidas ao sol. Ansiosas quando tocando a transparência do vidro da janela cravejada de chuva. As tuas mãos que alimentavam os meus cabelos.

Eras a minha musa. Eras a fabulação dos faunos e faustos e ninfas do pouco que eu escrevia. Do pouco que eu sabia. De tudo que me havias ensinado.

Mas a escrever agora esqueço-te, numa atroz dor de cabeça. O que me dói mais é ter de te apagar, negar-te a seiva dos meus abraços. Porque inclinado, sorvo o resto da garrafa e encontro o mar, na derradeira tentativa de nos eternizarmos como um fóssil.

Meu amor, porque foi esta partida?
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