8 de setembro de 2007

monotonias


autor desconhecido


Madrugam os espaços obliquamente transpirados pela tua presença. Segue em espiral o fumo dos cigarros numa subida estéril a confundir-se contra a luz pendurada do tecto. As cinzas amontoam quartas-feiras despojadas da carne e da gula.

São monotonias inscritas a vinho. A uni-ball repousa alarde junto ao bloco de papel branco a imitar mestrias sábias de naturezas mortas. Afago a textura da minha barba e sobra-me preguiça para a noite inteira. Os olhos movem-se de descarada indiferença.

Observas-me bebida por uma sombra de arestas de parede. Ondula a música lacónica. E depois um silêncio invocando mosquitos e o pó das estantes. Vem de novo a música simulando novo acorde para ir morrendo ruidosa, inconsistente.

Seduzo com os dedos o meu baixo-ventre em volúpias desnecessárias como se te ignorasse ou não houvesse o sexo em ti. Encostas o ombro à imobilidade da mesa, sorvida no mesmo canto entre arestas, imprecisa. Monótona. Sem te preocupar dares conta de mim.

Inspiro o cheiro virgem do bloco de papel branco incinerando-o com o bafo das minhas narinas, de cabeça largada sobre o tampo da mesa, enquanto a preguiça se contém no meu polegar a acariciar-me a glande, desleixada a mão sob os boxers.

Deixo madrugar assim o ambiente até ao cambalear do sono. As pálpebras a inquietarem-se ridículas como moscas em fim de estação. O bocejo transpira tranquilamente perante a tua presença. Gases intestinais, alarves. Escorrega-te já o fino fio de saliva abaixo do queixo.

Vou apagar a luz, numa desordem de gestos pueris, e bebo, conspurcado, o resto do vinho.
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