18 de setembro de 2007

levaste a morrer o dia


Anne Ferran


E onde deixaste correr as lágrimas, a fadiga veio sobranceira ao teu corpo para te tragar adormecida num abandono imerecido. Inquietam-te os sonhos abortados em pesadelos, mas não é isso que te desocupará agora do sono que ferraste.

Levaste a morrer o dia, estrebuchado no sofá a que te rendeste, com o lenço enrodilhado nos nós dos dedos de tanto morderes a dor. Uma nesga de sol procura-te no espaço entre os móveis, sacudida por uma cortina ténue de pó. Foi recolhendo devagarinho à paciência da janela numa descida de sombras disformes, acabando num silêncio de relógio de parede, acrescentando tempo a nadas, abstracções da tua ausência.

O teu corpo aí adormecido no colo do sofá, indefeso e em posição fetal. O rosto sulcado pelo sal das lágrimas evaporadas. Órfã de beijos, ombros e abraços. O mundo prossegue grotesco com a infidelidade de não saber reconhecer este teu sofrimento. Protege-te apenas a sombra, engolindo os ângulos das paredes, velando-te com um sussurro de preces.

Esperam-te os escombros quando pressentires o rendilhar espantoso da manhã. Então vais morder as aparências, ainda que enlutada pelo esquecimento.
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